Existem aquelas histórias que você conta nas festas e rodas
de amigos, quando ninguém mais te dá atenção e todo mundo
já está bocejando das suas piadas. O Histórias Massa é um arquivo
dessas histórias que - se forem mentira, a culpa não é nossa.
25.4.06
Papai Noel
Eusébio decidiu o que queria ganhar e foi avisar ao representante oficial de Papai Noel: - Pai, eu quero ganhar uma bicicleta de natal. - Meu filho, eu acho que não vai dar. Bicicleta é um presente muito caro. Imagine que Papai Noel tem que dar presente para todas as crianças do mundo. E o Bom Velhinho não é tão rico assim. - Mas papai, eu queria tanto uma bicicleta! Ele não precisa dar pra todo mundo, só pra mim. - Eu sei, filho. Mas imagine se todas as crianças do mundo ficarem sabendo. Como ele vai fazer, hein? Não dá. - Mas papaiiiiiiiiii... - Nada de "mas". Ele não pode lhe dar e pronto. Assunto encerrado.
Assunto encerrado nada. Eusébio era uma criança persistente - como todas, aliás. E ficou enchendo o saco do pai por todo o mês. O pai cada vez mais puto, Eusébio cada vez mais choroso.
Finalmente chegou o dia 24. Família reunida, ceia, árvore, panetone, bússula, essas coisas. E Eusébio nervoso. Será que ele tinha convencido o pai e iria ganhar a tão sonhada bicicleta?
Entra o pai de Eusébio fantasiado de Papai Noel, como fazia todos os anos. Todas as crianças excitadas e histéricas.
Dona Zelita, avó materna de Eusébio, sugere: - Eusébio, vai pedir pra Papai Noel a sua bicicleta.
Os olhos de Eusébio brilharam. Com o maior sorriso possível estampado no rosto, braços estendidos, ele foi na direção do Bom Velhinho e perguntou: - Papai Noel, cadê minha bicicleta?
Papai Noel arrancou a barba postiça revelando a cara de muito puto do pai e gritou: - Eu já não tinha falado que não tinha porra de bicicleta nenhuma, caralho?!
Era Quarta-Feira santa e Dona Jossandra estava angustiada com o feriado vindouro e os parentes que inevitavelmente apareceriam no domingo de Pácoa. Mais do que a chatice das conversas e os sobrinhos gritando, ela se preocupava com o almoço do domingo, algo que fosse marcante e diferente o suficiente para calar a boca da irmã, que sempre reclamava das suas escolhas.
Domingo de Pácoa é dia de se empanturrar de carne. E, na cidade do interior do Mato-Grosso, as opções eram muitas: cobra jacaré, capivara e outros bichos que nun futuro próximo seriam protegidos pelo Ibama. Mas, lá o meio do mato, todos pareciam igualmente corriqueiros e sem-graça. E passaram-se as santas quarta, quinta e sexta-feira sem nehuma luz.
No sábado - aleluia - dona Jossandra estava pensando no seu dilema cedo, antes de ir para a feira quando recebeu uma luz. Páscoa lembra coelho. Ela faria um delicioso ensopado de coelho, que sem dúvida agradaria a todos pela propriedade temática, pelo sabor e pela dificuldade de encontrar tal carne por aquelas bandas. Os parentes não eram tantos, apesar do trabalho que suas visitas causavam, portanto dois coelhos seriam o suficiente.
Dona Jossandra foi até o quintal, abriu a gaiola onde descansavam Perninha e Lilica e - rapidamente, pois era uma pessoa muito humana - abateu os animais em frente aos olhos das filhas Nina Samanta e Soraia Loreta, que tanto amavam seus mascotes. Com forma de diminuir o choro das meninas, Dona Jossandra disse que elas poderiam ficaar com os pés dos bichinhos, depois de passarem alguns dias no varal, para secar. Meninas um pouco acalmadas, ela tirou a pele e limpou os ex-mascotes, guardou a carne na geladeira, para o preparo no dia seguinte.
A receita, de fato, deixou todos tão estupefatos e satisfeitos que não paravam de comer ou tiravam sequer os olhos do prato para prestar homenagem à cozinheira. Dona Jossandra não era mulher de dar trela para frescura de menino, por isso não havia outro prato para as meninas, que, como certos aborígenes brasileiros, consumiram ritualmente os seus companheiros de brincadeiras entre lágrimas - que infelizmente alteraram o sabor da iguaria, deixando-a mais salgada.
O erro de Dona Jossandra foi que - na sua angústia culinária - ela esquecera de comprar os ovos de chocolate das filhas e sobrinhos visitantes. Mas, mulher de mente ágil, achou a justificativa perfeita.